Entre o dizer e o fazer: qual o elo de ligação?

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Vivenciamos um momento peculiar nos dias atuais. Estamos em meio a protestos e manifestações. Qual é a luta? Qual é o protesto? O que tem gerado indignação das pessoas no campo político? Poderá ter isso alguma relação com a vida cristã? Com a Igreja?

As perguntas não são poucas. São inúmeras.

Será que existe um único elemento gerador de todos os outros problemas? Penso que sim.

A indignação e repúdio manifesto nas ruas não é novo. Mas de tempos em tempos estes protestos voltam a tona. A história da igreja também já viveu isso. Um dos momentos mais marcantes da história da igreja cristã foi o que conhecemos como reforma protestante. Entre inúmeras angústias manifestas, por, primeiramente, John Wycliff e John Huss e, posteriormente, com Lutero, podemos destacar uma em especial e que pode ser comparada tranquilamente as manifestações atuais, a saber, a discrepante distância entre teoria e prática. Para entender melhor isto leia o texto bíblico abaixo:

Tiago 1:22-27

22 Sejam praticantes da palavra, e não apenas ouvintes, enganando-se a si mesmos.
23 Aquele que ouve a palavra, mas não a põe em prática, é semelhante a um homem que olha a sua face num espelho
24 e, depois de olhar para si mesmo, sai e logo esquece a sua aparência.
25 Mas o homem que observa atentamente a lei perfeita, que traz a liberdade, e persevera na prática dessa lei, não esquecendo o que ouviu mas praticando-o, será feliz naquilo que fizer.
26 Se alguém se considera religioso, mas não refreia a sua língua, engana-se a si mesmo. Sua religião não tem valor algum!

O texto acima é bastante claro e objetivo. Percebemos que o problema gerador de tantos males em nossa sociedade, seja na política ou na igreja, é, como já apontamos, a absurda distância entre o dizer e o fazer, isto é, entre o que prego e o que vivo, entre o que anuncio e faço. A pergunta que nos surge, pensando na vida cristã é: qual o elo de ligação entre o dizer e o fazer? Entre a teoria e a prática?

No que se refere a vida cristã o elo, evidente, que podemos destacar é a fé em Cristo. Ninguém consegue viver a novidade de vida que Cristo proporciona sem, obviamente confiar NELE. A fé em Cristo (re)liga o nosso dizer com o nosso fazer. Não há outro elo possível, pois somente este permite uma atitude fundamental para o cristão, a saber: o agir com Cristo.

Agir com Cristo requer que não sejamos apenas ouvintes da palavra, não basta ouvir. É preciso agir. Se ouvir bastaria, Cristo não convocaria seus discípulos para o seguirem. De tempos em tempos os protestos e as manifestações vem à tona não por obra do acaso, mas pela insatisfação da humanidade com discursos vãos, que não se tornam visíveis na prática. Essa é a tentação com que todos se deparam dia a dia, ou seja, dizer o que não faz; pregar o que não vive; comunicar o que não experimenta; etc. A fé em Cristo nos possibilita agir com Cristo e agir com Cristo nos possibilita dois exercícios espirituais diários. São eles:

1. Exercício da negação (versos 23-25) – agir com Cristo é viver a renúncia e a negação de si mesmo. É o esvaziar-se. Esvaziar-se de tal maneira a abster-se de toda satisfação. Pois a satisfação (e sua presença) apontam/denunciam o anseio de reconhecimento do indivíduo. Facilmente é possível perceber na vida de Jesus de Nazaré a negação de si mesmo, mesmo sendo um com o Pai. O exercício da negação (negar a si mesmo), e só ele, é capaz de fazer com que o indivíduo olhe mais para o próximo do que para si mesmo. E para que o indivíduo não seja mero ouvinte da palavra, mas praticante da mesma faz-se necessário a renuncia de si em prol do outro.

2. Exercício da relação (versos 26-27) – agir com Cristo é um exercício diário e pleno. Quando aprendemos a negar a nós mesmos podemos experimentar outro e fundamental exercício da fé cristã, isto é, o exercício da relação. Somos (ou deveríamos ser), como sabemos, Corpo de Cristo. Isto requer relacionamento. Requer intimidade. Estamos enganados se nos achamos praticantes da palavra sem o exercício da relação. E não se trata de qualquer relação. Trata-se de um relacionamento sacrificial, no sentido de gastar tempo com o próximo porque o próximo precisa de mim e eu como próximo do próximo também preciso dele.

Um membro é dependente do outro no Corpo. Isto não é novidade, mas porque não vivemos? Por que não experimentamos? Por que há um abismo entre o dizer e o fazer? Porque não confiamos em Deus. Porque não temos fé em Cristo. O elo que possibilita fazer o dizer é a fé em Cristo. É somente através dela que é possível. Pois esta fé é que nos permite a atitude fundamental de agir com Cristo. Finalmente, somente agindo com Cristo aprendemos dois exercícios fundamentais que geram transformação no indivíduo e na sociedade, ou seja, aprendemos a exercitar a negação e aprendemos a exercitar a relação. “Não sejamos apenas ouvintes”.

Do Pensamento no Deserto

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